Poética do Olhar

Delicadamente apressada, pôs a bandeja em cima da mesa e sentou-se. Cabelos cacheados, óculos coloridos, vestido esvoaçante e uma timidez ingênua tão peculiar ao derramar aquele açúcar tremido na mesa que me encantou em cheio. Cúmplice, identificava-me com todo aquele atrapalhamento doce e esfomeado. Após adoçar o café e a mesa, lambeu com gosto a colher e os dedos e olhou ao redor, atenta, afugentando qualquer olhar que condenasse o ridículo da vida subjetiva. Bagunçou meticulosamente os cabelos e ajeitou as belas louças da cafeteria, como quem se arruma para uma festa de arromba. Tal cena me embebedava. Após o terceiro gole quente e uma mastigada elástica, respirou fundo e sorriu. Com a mão perdida pela bolsa, sacou um celular multiuso e começou uma verdadeira dança ritualística em volta da bandeja, buscando o melhor ângulo para a foto. Foto? Ao primeiro clique, um barulho desengonçado que ela logo desativou discretamente para evi...