Carregando...

6 de julho de 2015

Mas é ele

Não é estranho ter saudades antes mesmo de partir. Estranho é sentir essa saudade de quem ainda nem nasceu. E eu sei que poderia acalmá-lo dizendo fica traquilo, filho, papai volta logo. Mas é ele quem me acalma em uma mexida emocionante: logo mais você volta, papai, boa viagem e bom trabalho! Ele, junto à mãe: os que me dão sentido ao tudo.

24 de junho de 2015

Maninha

Karina e Vinícius. Foto de 2006.

Talvez ainda uma criança da última vez que citei você aqui. Nem faz tantos anos. É que o tempo voa, mesmo. Parece até que foi ontem que eu vi você aprendendo a dar os primeiros passos. E hoje já é sua filha, minha sobrinha, nosso clone, quem vai aprendendo a caminhar com as próprias pernas de maneira emocionante. Ligeira e encantadora como a mãe.

Talvez não saiba do meu orgulho ao vê-la alcançando a adultice em idade e maturidade. Não apenas por vê-la escutar Beatles e substituir-me no posto de ajudante-oficial na hiperatividade do pai, mas principalmente por vê-la aprender a lidar com os percalços da vida.

Talvez não tenha noção do tamanho do medo que a vida nos deu ano passado, susto maior do que vê-la pular do berço ou cair com o triciclo de cima do escorregador. E talvez não saiba o alívio que foi vê-la sair bem daquele hospital após tanta aflição, alegria maior do que vê-la escrevendo belas redações, ganhando de mim no xadrez e arranhando no teclado junto à Ju. A aluna mais querida e impaciente que já vi.

Talvez não perceba, mas continua se fazendo presente apesar da distância. Como quando eu chegava em casa e sentia o cheiro do seu mingau, usava seu shampoo para cachos e lamentava meus biscoitos subtraídos do armário.

Talvez não se dê conta, mas apesar dessa presença no coração, sinto falta da sua companhia cotidiana. De você invadindo meu quarto a despeito da placa "proibido Karina" para mostrar seu caderno, acompanhar-me no videogame ou suplicar a morte de uma barata.

Talvez não faça sentido, mas sinto falta até das nossas discussões para você falar direito e mais devagar, ou para eu dirigir direito e mais rápido. Do seu mau-humor matinal e da maneira sagaz com que você adivinhava meus defeitos e gostos, todos.

Talvez não demonstre tanto como deveria, mas gosto de você. Gosto quando você me atende monossilábica no telefone, quando ouço você cantar desafinada em inglês para a Manu dormir, quando você tenta me ensinar a mexer em eletrônicos e comprar coisas de bebê. Gosto de vê-la, de abraçá-la, de encher seu saco, de saber que minha irmãzinha é hoje uma universitária esforçada, uma filha companheira, uma namorida carinhosa, uma mãe cuidadosa, uma tia babona.

Talvez o Tito venha até a gostar da sua pipoca com ajinomoto e das outras tosqueiras que você curte, tal como a Manu já curte buzinar minha escaleta azul. Família cada vez mais bonita e mais barulhenta essa nossa, heim?

Talvez, enfim, seja esse tipo de vínculo simples e profundo que espero seguir vivendo nesses novos passos que estamos aprendendo juntos, maninha. Aprendendo juntos a ser o que nossos pais já são.

Feliz aniversário!
Com muito carinho, Dedei.

17 de junho de 2015

Unobtainium

O artigo roga ao líder criar vínculos como os na'vi, ser mais pinguim e menos leviatã, viver em harmonia em lugar da ambição cega. Mas há quem consiga enxergar por dentro da intenção do autor (mesmo que inconscientemente) o mesmo tipo de exploração que seu texto critica, resumindo-o assim: vire um avatar, vincule-se aos na'vi e conquiste para si o máximo possível de unobtainium.

31 de maio de 2015

Filho no Ventre

Ilustração de bebê no útero materno emanando corações azuis.

Não, não cabe mais

As roupas no corpo?
Os móveis no quarto?
Os gastos na conta?
O filho no ventre?

Não, não cabe mais
tanta alegria no peito!

4 de janeiro de 2015

Com o Piano

Juliana tocando piano.

Deixa-se delicadamente revelar
pela maneira de lidar
com o piano
da sala.

Toca e canta sempre que está bem
mas se uma tristeza vem
com o piano
se cala.

Por isso um sorriso nasce em meu coração
toda vez que a sua mão
com o piano
nos embala.

5 de novembro de 2014

Ciclo

A chuva que cai
no pó da terra evapora,
renasce haikai.

3 de novembro de 2014

Pressa

A cega tropeça.
A tropa pega o metrô.
A guerra começa.

1 de novembro de 2014

Distração

Seu vestido verde,
batom vermelho e o tom
alheio ao me ver.

28 de outubro de 2014

Dois

Quando nos casamos há dois anos, após deliciosos quatro anos de namoro, às vezes eu sentia uma inevitável inquietação que me fazia perguntar: será que continuará dando certo? Será que continuará tão bom assim? E fui vendo, daquela primavera em diante, que nossa parceria não apenas continuaria dando certo, pois ela foi ficando cada vez melhor, mais afinada, mais gostosa de viver.

Porque você é a companhia mais agradável que já conheci e desfrutei. Brilhantemente inteligente e talentosa. Sensível e ligeira para lidar com as alegrias sem perder os pés do chão. Forte e sensível para lidar com os desafios da vida sem perder a serenidade, a fé e a ternura. Admiravelmente íntegra e coerente, sempre enraizada em valores justos e amorosos.

Porque você tem uma beleza radiantemente dengosa que a torna sempre lindíssima, atraente, infinitamente abraçável e beijável. Porque você sabe ser eruditamente simples, conversar com profundidade e cumplicidade, cantar e dançar e rir e esbanjar amorosidade e doçura, seja em um domingo preguiçoso, seja em meio ao turbilhão de uma semana complicada, da hora que tenta acordar à hora que tenta dormir. Sempre com esse sorriso lindíssimo e essa energia que quer sempre mais e melhor.

Porque você é extremamente realista e extremamente sonhadora, em um equilíbrio elegante e impressionante: uma explosão de sede de vida! Porque você também sabe dos meus inúmeros defeitos e me faz, mesmo sem perceber, sempre cheia de jeitinho, empenhar-me para ser cada vez mais um homem igualmente íntegro, respeitoso e amoroso com você e com todos ao nosso redor. Porque você tem esse jeito todo admirável e único de levar a vida e de partilhá-la comigo.

Porque, por conta disso tudo, é você quem eu amo, cada dia mais e mais. Porque é você que me faz, com o coração agitado e emocionado diante desse dia tão especial, voltar a me perguntar: será que continuará dando certo? Será que continuará tão bom assim? Porque é você que, ao mesmo tempo que instiga as perguntas, me dá uma piscadela marota e me cochicha cheia de charme: há de ser ainda melhor!

24 de setembro de 2014

Critério de Valor

Todo bom critério é evidente. E não há melhor critério do que o respeito ao próximo, o respeito àqueles que, semelhantemente a você, possuem defeitos e qualidades, que erram e acertam, que tentam, cada um à sua maneira, fazer o que julgam ser o melhor.

Respeitar os outros, inclusive, no meu caso, é respeitar a mim mesmo, respeitar os meus valores, valores tão cuidadosamente plantados e cultivados por quem verdadeiramente me ama. Por quem me respeita acima de tudo.

Respeito é o contrário de fazer vista grossa ou largar mão: respeito é o ápice da atenção, do olhar atento, do esforço em entender e, se preciso, ajudar e melhorar. Do esforço em aceitar a ajuda alheia, sempre alheio a vaidades.

Respeito é o critério que mais faz inflar positivamente o juízo de valor sobre qualquer avaliado. É o critério que não precisa de explicação, tampouco de argumentação ou de forçação. É o critério cristalino: sólido e transparente como cristal.

Respeito é o valor evidente em qualquer pessoa digna. E a "dignidade", diga-se de passagem, só é para poucos quando pronunciada isoladamente. Quando esmiuçada com atenção, logo se vê que é para todos, pois todos são dignos de respeito. Porque ninguém, se respeitado, é desprovido de valor.