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24 de setembro de 2014

Critério de Valor

Todo bom critério é evidente. E não há melhor critério do que o respeito ao próximo, o respeito àqueles que, semelhantemente a você, possuem defeitos e qualidades, que erram e acertam, que tentam, cada um à sua maneira, fazer o que julgam ser o melhor.

Respeitar os outros, inclusive, no meu caso, é respeitar a mim mesmo, respeitar os meus valores, valores tão cuidadosamente plantados e cultivados por quem verdadeiramente me ama. Por quem me respeita acima de tudo.

Respeito é o contrário de fazer vista grossa ou largar mão: respeito é o ápice da atenção, do olhar atento, do esforço em entender e, se preciso, ajudar e melhorar. Do esforço em aceitar a ajuda alheia, sempre alheio a vaidades.

Respeito é o critério que mais faz inflar positivamente o juízo de valor sobre qualquer avaliado. É o critério que não precisa de explicação, tampouco de argumentação ou de forçação. É o critério cristalino: sólido e transparente como cristal.

Respeito é o valor evidente em qualquer pessoa digna. E a "dignidade", diga-se de passagem, só é para poucos quando pronunciada isoladamente. Quando esmiuçada com atenção, logo se vê que é para todos, pois todos são dignos de respeito. Porque ninguém, se respeitado, é desprovido de valor.

6 de agosto de 2014

Praia

Meus dedos adentram seus cabelos como ondas suaves que beijam as margens de areia. Seu suspiro estremece meus ombros como a brisa esvoaça a firmeza dos coqueiros. Tal como sol de verão, o calor de nosso abraço agarra e abrasa nossos corpos e alma. E a felicidade nos é dada de modo frágil e recorrente, como conchas coloridas a serem acolhidas com delicadeza, carinho e atenção.

17 de abril de 2014

Chora-se

O tão inesperado que veio.
O que se foi tão inesperadamente.
O tão esperado que pode não vir.
A convicta esperança no que virá.

4 de abril de 2014

Sorte

Muito sucesso é sorte; muita sorte é empenho.

3 de abril de 2014

Engano

Dizem que vivia trabalhando, como se aquela trabalheira fosse vida.

1 de abril de 2014

Na Estação de Trem

Eu cedo no bar
e peço logo um expresso
p'ra me atropelar.

19 de março de 2014

Der Radwechsel

« Sento-me à beira da estrada.
O motorista troca o pneu.
Não quero estar lá, de onde venho.
Não quero estar lá, aonde vou.
Por que assisto à troca do pneu com impaciência? »

(Bertold Brecht, trad. Ricardo Domeneck, via Gustavo Nagel)

28 de janeiro de 2014

A Fila Anda

Impactaste minha vida como caminhão tombado na pista expressa da Marginal Tietê, como objeto na via às sete da manhã. Fizeste meu coração bater forte como bateria no Anhembi, como torcida organizada em final de campeonato. Puseste-me ansioso e sem escolha como trabalhador na linha vermelha querendo entrar em trem lotado, como mãe na fila do SUS. Encheste minha esperança como a 25 de Março no Natal, como córrego em verão. Deixaste meu amor grande e louco como o preço dos imóveis, como o trânsito da M'Boi Mirim. E minha vida ficou boa como pastel de japonês, como piscina do Sesc. Mas usaste-me e esqueceste-me como político eleito, como bituca de cigarro. Fiquei pálido e sem vida como céu cinza sem estrelas, como flor de shopping center. Perdido e sem rumo como turista na Paulista, como criança em beco da Luz. E quis voltar no tempo como retirante nordestino, como costureira boliviana. Mas não consigo esquecer-te. A fila não anda nesta cidade.

27 de janeiro de 2014

Gostar e Fazer

Eis o segredo: não só fazer o que gosta, tampouco apenas gostar do que faz, mas sempre as duas coisas juntas – gostar e fazer – como duas faces de uma moeda que, se não compra a felicidade, pelo menos é dada como troco em tal transação.

25 de janeiro de 2014

Vergonha Alheia

Cindido a ponto de sentir vergonha alheia de si mesmo.