Canto em Silêncio
14 de maio de 2013
11 de maio de 2013
As Forças do Mal
O problema não está nas opções, mas nos critérios de escolha - ou melhor, na falta deles.
Se pudéssemos definir como agem as forças do mal, muitos diriam que elas roubam pessoas, objetos ou possibilidades de escolha, mas eu discordo: para mim, perder tudo isso, por mais difícil que seja, faz parte da vida.
Estou convencido de que uma verdadeira força do mal é aquela que, sem tirar absolutamente nenhuma pessoa, objeto ou possibilidade de escolha, arranca de nós algo muito maior: nossos valores, critérios a partir dos quais escolhemos o que amar e a que nos dedicar.
O inferno, desse modo, não seria uma sala sem televisão ou computador, mas uma sala repleta de canais e sites acessados por alguém que não sabe do que gosta ou do que tem interesse.
Como sempre digo: o problema não está na falta de ruas para chegar a algum lugar, mas na multidão de ruas que levam a lugar nenhum.
E digo mais: infelicidade não é a falta do que se ama; é a falta de saber o que amar.
5 de maio de 2013
Por meio do através
Em época de tremenda superficialidade, não é de se estranhar que, apesar de a língua ser totalmente metafórica, inclusive em contextos formais, o uso do "através" seja tão condenado por possuir o sentido de "atravessar": vivemos em uma época em que tudo é possível, desde que não "atravesse" nada ou ninguém: desde que seja superficial.
Eis assim, como sempre foi e há de ser, a língua como reflexo da sociedade: através dela - corrigiriam, por meio dela - revelam-se nossos maiores melindres: temos total liberdade de falar ou fazer tudo, desde que absolutamente nada seja alterado.
Eis assim, como sempre foi e há de ser, a língua como reflexo da sociedade: através dela - corrigiriam, por meio dela - revelam-se nossos maiores melindres: temos total liberdade de falar ou fazer tudo, desde que absolutamente nada seja alterado.
3 de maio de 2013
Sol e Estrela
Não basta saber que o sol é uma estrela; é preciso, sobretudo, lembrar que cada estrela é um sol alheio.
27 de abril de 2013
Fins e Meios
Assim como pode haver diversos caminhos por uma única rua (um único meio para diversos fins), pode haver um único caminho por diversas ruas (um único fim por diversos meios). O que determina um caminho não são as ruas (os meios), mas são os pontos de partida e chegada (os fins). E nossa época está assim: cada vez mais meios, cada vez menos fins.
6 de abril de 2013
Vida Equilibrada
Vida equilibrada
não é aquela sem extremos.
não é aquela sem extremos.
Quanto mais peso em cada um dos lados,
mais raro e belo o equilíbrio.
mais raro e belo o equilíbrio.
Maior a leitura, melhor a escrita.
Maior o cansaço, melhor o descanso.
Maior o esforço, melhor a recompensa.
Maior o poder, maior a responsabilidade.
Maior o amor, melhor a pessoa a quem se ama.
E quanto melhor tudo isso, maior o risco de desabamento.
Resumindo: maior o risco, melhor a vida.
E vice-versa.
4 de abril de 2013
Trabalho de Formiguinha
Enquanto a formiga diligentemente trabalhava, a cigarra continuava seu discurso poético e pomposo:
- E digo mais: o problema é que vocês, formigas, ficam fazendo o trabalho que na verdade é de responsabilidade única e exclusiva do Governo que elegemos. Enquanto vocês fizerem a tarefa alheia, os problemas serão minimizados e nada vai mudar estruturalmente neste país injusto...
Mas enquanto a cigarra fazia seu discurso poético e pomposo, a formiga continuava trabalhando diligentemente. E digo mais: em seu "trabalho de formiguinha", ainda que pequeno, fazia a diferença ao seu redor.
- E digo mais: o problema é que vocês, formigas, ficam fazendo o trabalho que na verdade é de responsabilidade única e exclusiva do Governo que elegemos. Enquanto vocês fizerem a tarefa alheia, os problemas serão minimizados e nada vai mudar estruturalmente neste país injusto...
Mas enquanto a cigarra fazia seu discurso poético e pomposo, a formiga continuava trabalhando diligentemente. E digo mais: em seu "trabalho de formiguinha", ainda que pequeno, fazia a diferença ao seu redor.
31 de março de 2013
A Metamorfose, de Kafka
Resenha participante do Desafio Literário 2013
Eu que sempre tão preso ao papel, finalmente li meu primeiro ebook: A Metamorfose.
Conhecia de cor o enredo (o cara que se transforma num inseto) e o estilo do autor, de modo que há tempos sei explicar o que é um texto kafkaniano. No entanto, o fato: eu ainda não tinha lido nada dele. Não por falta de indicações, mas por pura procrastinação. E gostei, não como algo genial ou comovente, mas como algo necessário.
Com relação à estória, clichê relembrar o quanto Gregor e sua família se metamorfoseando metaforizam a humanidade que vai perdendo seus traços essenciais em meio ao mundo moderno.
Com relação ao estilo, também clichê relembrar o quanto a narração sendo narrada como corriqueira metaforiza a naturalidade com a qual encaramos as bizarrices do cotidiano. Quer cidade mais kafkaniana do que nossa São Paulo?
O defeito dos clichês não é serem repetições, mas é perderem o efeito. E o que Kafka faz é exatamente isso: ao narrar como natural algo nauseante, lembra-nos o quanto fazemos isso no dia a dia. Lembrete que talvez nem faça mais efeito, embora siga necessário: foi apenas quando virou inseto (quando se colocou "outside") que Gregor começou a reparar melhor nas coisas.
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KAFKA, Franz. A Metamorfose. [1915]
29 de março de 2013
Agente ou paciente
Em essência, o verdadeiro cristão não é aquele que converte: é aquele que é convertido. Eis porque o Criador requer de suas criaturas não apenas agência, mas sobretudo paciência.
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