Postagens

Poética do Olhar

Imagem
Delicadamente apressada, pôs a bandeja em cima da mesa e sentou-se. Cabelos cacheados, óculos coloridos, vestido esvoaçante e uma timidez ingênua tão peculiar ao derramar aquele açúcar tremido na mesa que me encantou em cheio. Cúmplice, identificava-me com todo aquele atrapalhamento doce e esfomeado. Após adoçar o café e a mesa, lambeu com gosto a colher e os dedos e olhou ao redor, atenta, afugentando qualquer olhar que condenasse o ridículo da vida subjetiva. Bagunçou meticulosamente os cabelos e ajeitou as belas louças da cafeteria, como quem se arruma para uma festa de arromba.  Tal cena me embebedava. Após o terceiro gole quente e uma mastigada elástica, respirou fundo e sorriu. Com a mão perdida pela bolsa, sacou um celular multiuso e começou uma verdadeira dança ritualística em volta da bandeja, buscando o melhor ângulo para a foto. Foto? Ao primeiro clique, um barulho desengonçado que ela logo desativou discretamente para evi...

O Inferno Sonoro

Acredito que um dos maiores poderes da literatura - ou melhor, de nós, leitores - é colocar em diálogo escritores distintos e distantes. Exemplo nítido disso é a abordagem dos perspicazes escritores Ricardo Piglia e C. S. Lewis acerca do ruído. O argentino Piglia, em seu ensaio "Retrato do Artista" (2000), não apenas constata o ruído como principal marca constitutiva de nossa sociedade, mas completa: "Ao mesmo tempo, os músicos contemporâneos comprovam e dizem o que ninguém sabe: que a cultura de massa não é uma cultura da imagem, mas do ruído. Pela janela aberta do estúdio de Gandini chegavam os rumores do mundo. Uma confusa profusão de sons inarticulados, cortinas musicais, alaridos políticos, vozes televisivas, sirenes policiais, anúncios de concertos internacionais e rock-and-roll . No extraordinário capítulo das "Sereias" no Ulysses (que é dedicado à música), Joyce deu a perceber que o capitalismo é um mataga...

Os Saltimbancos e a Política

Rádio. Dia das crianças. Mês de eleições. A repórter perguntou se neste novo século, em tempos de  paz e democracia, ainda é possível manter o viés político e militante do musical infantil Os Saltimbancos. A resposta veio mais ou menos nos seguintes termos: " Veja , assim como na época da ditadura, o musical ainda mantém uma mensagem política. No entanto, em vez da luta contra os opressores, a nova versão (que junta às canções de Chico outros hits como Hakuna Matata) pretende reforçar a questão da união em prol de um bem maior: ao final, bichos e barões se unem, já que todos juntos somos fortes ". Em princípio, pareceu-me bastante reducionista e ultrajante tal mudança. No entanto, olhei para nosso cenário político, para as tantas alianças e junções inusitadas, e percebi quão coerente foi a adaptação. E triste.

Canção Simples

Imagem
<p>Vídeoclipe da música Canção Simples, de Tiago Bettencourt & Mantha "...e sentir que somos dois, mas que juntos somos mais. (...) Fazes muito mais que o sol." Ju, feliz dia dos namorados! =-]

O Tempo

Sempre concordei com quem diz que "o tempo" é o culpado das ausências: sentimos falta (presente) daquilo que já vivemos (passado) e/ou daquilo que almejamos viver (futuro). O problema é que, em plena época de profunda "falta de tempo", as ausências de pessoas e momentos insistem em permanecer, talvez até em maior grau. Assim, já não sei se a culpa é do tempo, ou da falta dele, ou simplesmente de cada um de nós.

Dos males, o menor

"Dos males, o menor." Ainda que ruim, seria melhor do que "o banco das melhores taxas".

Sem contar o tipo que dá bom dia a todos e opinião a ninguém.

Sem contar o tipo que dá bom dia a todos e opinião a ninguém. É como igreja de turista: com a porta sempre aberta, mas limitada a visitas superficiais e passageiras.