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Olhos Puxados

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Desde muito pequeno me classificaram como observador, visual, olhar sensível, e assim foi durante anos. Já fui desenhista, arquiteto, poeta. Já sonhei muito nesses anos que decoram as paredes da minha memória, inclusive com você, filho. Até que virei seu pai e você virou minha visão favorita, a mais intrigante de todas até aqui. Visão de infinitas surpresas, de inesgotáveis sorrisos. Como quando vejo estupefato sua atenção a cada pequena migalha no chão onde pisam seus pés descalços de passos firmes e incansáveis, obstinados. Ou quando admiro boquiaberto seu olhar atento a cada estrelinha, por mais paulistano que esteja o céu que embala essa sua infinita concentração no infinito. Cabeça nas nuvens e pés no chão, como sua mãe, de quem você tanto puxou. E que me presenteou com os olhos puxados, esses olhinhos espertos que nos fazem enxergar melhor a vida. Talvez você ainda não perceba, mas enquanto você vai crescendo e explorando as cores, as texturas e os sabores dessas suas miudezas...

Não

Concordo quando afirmam que um dos maiores desafios dos pais é aprender a dizer "não", principalmente, no meu caso, quando preciso dizê-lo ao orgulho do workaholiquismo.

Nosso primeiro mês

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Os conselhos do mar

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Aos marinheiros de primeira viagem. O mar guarda em si as histórias de todos os navegantes que já o enfrentaram. Bons e maus, bem e mal sucedidos. De distintas épocas e diferentes destinos: em cada onda, em cada gota, uma lição. No barco da vida, os conselhos são o mar.  Sem o mar, o barco não sai do lugar.  O bom navegador ouve cada história com muito respeito, atenção, sensibilidade e humildade. Conduz seu barco com firmeza e senso de direção, principalmente em meio às tormentas. Não se encanta com o canto das sereias, nem se desespera com o estrondo dos trovões. Garante que nenhum furo ou ventania deixará a água do mar se intrometer a ponto de o fazer naufragar. E entende, pelas próprias histórias que ouve, e que vai vivendo, que o mar é inevitável, às vezes traiçoeiro, mas sempre essencial.

Cúmplice

É bom que você aprenda o quanto antes: uma massagem realmente boa é aquela que faz sua mãe ficar relaxada mesmo ao som do pior programa futebolístico, filhão.

Mas é ele

Não é estranho ter saudades antes mesmo de partir. Estranho é sentir essa saudade de quem ainda nem nasceu. E eu sei que poderia acalmá-lo dizendo fica traquilo, filho, papai volta logo. Mas é ele quem me acalma em uma mexida emocionante: logo mais você volta, papai, boa viagem e bom trabalho! Ele, junto à mãe: os que me dão sentido ao tudo.

Filho no Ventre

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Não, não cabe mais As roupas no corpo? Os móveis no quarto? Os gastos na conta? O filho no ventre? Não, não cabe mais tanta alegria no peito!

Epifania

Conversávamos no sofá após o jantar até que: Estava contando para ela a deliciosa frustração de, no dia seguinte à publicação daquele breve conto de distopia no blog, ter lido a caminho do trabalho um fabuloso trecho em O Nosso Reino , de Valter Hugo Mãe, trecho no qual o escritor constrói uma distopia terrível e belíssima de pessoas que vão se apequenando até que tudo ocorra apenas no cérebro de modo que as mentes se conectam em uma profunda compreensão da vida. Fato é que tal trecho me pôs a concluir que nunca chegaria lá, nunca viria a ser escritor como aquele gajo. Ela repetiu que o maior problema era não apenas a forma escrita, mas principalmente a forma pessimista e superficial com que eu tinha abordado os avanços tecnológicos. Dizia-me isto enquanto ia zapeando o televisor até que o acaso nos levou ao canal Cultura e vimos ali, no Roda Vida, o próprio assunto de nossa conversa: o escritor, ele mesmo, diante dos jornalistas brasileiros! Estupefacto, ouvi dizê-lo ...