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Mostrando postagens com o rótulo Argumentações

Sem chegar a lugar algum

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12:00 Vale lembrar: a dicotomia benjaminiana já não comporta mais o narrador contemporâneo, pois ele nem é o viajante que volta para contar o que viveu, nem o velho familiar que sempre permaneceu na vila. O novo narrador, amante de Borges, que viaja vice-versa da casa ao trabalho e eventualmente ao lazer (do nada ao vazio, como preconizam os orientais), nem sai, nem fica: é eterno transeunte baudelariano girando na roda viva do Yin-Yang subjetivo. É por isso que a narrativa contemporânea dá tanto rodeio sem chegar a lugar algum. 03:00 G. K. Chesterton (escritor britânico cuja felicidade consistiu em fazer uma longa viagem para chegar exatamente no lugar de onde partiu, sentindo a aventura do viajante e a segurança familiar do aldeão, conforme narra em Ortodoxia ), preocupado com os rumos que a narrativa mundial tomava, sugeriu o seguinte: se não é possível sair do círculo da loucura, é preciso pelo menos expandi-lo, deixar de centrar-se no indivíduo e, de fato, descentrar-se ...

Um pé atrás

Tem lá sua razão quem diz que uma boa dose de frustrações ajuda a construir um bom escritor. Agora, entre dar mais importância à biografia do autor do que à sua elaboração artística, há um abismo perigoso. Se a história pessoal de quem escreve fosse mesmo tão essencial, vasculhar a vida de cada crítico literário antes de o levar a sério também seria necessário: estudá-los-íamos com um pé atrás a cada indício de escritor frustrado.

Critério de Valor

Todo bom critério é evidente. E não há melhor critério do que o respeito ao próximo, o respeito àqueles que, semelhantemente a você, possuem defeitos e qualidades, que erram e acertam, que tentam, cada um à sua maneira, fazer o que julgam ser o melhor. Respeitar os outros, inclusive, no meu caso, é respeitar a mim mesmo, respeitar os meus valores, valores tão cuidadosamente plantados e cultivados por quem verdadeiramente me ama. Por quem me respeita acima de tudo. Respeito é o contrário de fazer vista grossa ou largar mão: respeito é o ápice da atenção, do olhar atento, do esforço em entender e, se preciso, ajudar e melhorar. Do esforço em aceitar a ajuda alheia, sempre alheio a vaidades. Respeito é o critério que mais faz inflar positivamente o juízo de valor sobre qualquer avaliado. É o critério que não precisa de explicação, tampouco de argumentação ou de forçação. É o critério cristalino: sólido e transparente como cristal. Respeito é o valor evidente em qualquer pess...

Para saber estar junto

Todo bom relacionamento – seja ele familiar, conjugal, profissional, entre amigos, enfim – todo bom relacionamento nos faz valorizar os pequenos prazeres da vida, inclusive os breves – e prazerosos – momentos de introspecção. Afinal, bons momentos a sós são a base de bons diálogos e bons diálogos são a base de bons relacionamentos. Mas vale enfatizar: breves – e prazerosos. Se os momentos a sós forem muito constantes ou não existirem, acabar-se-ão os diálogos e, com eles, qualquer possibilidade de relacionamento. Ou ainda em outras palavras – penso cá comigo mesmo: para saber estar junto, há de se saber ficar sozinho.

Imagine o nutricionista

Imagine o nutricionista dizendo que você precisa comer, que precisa comer e ponto, sem dizer o quê, nem para quê, nem quanto. Seria tão incompleto quanto quem diz aos outros que é importante ler, que é importante ler e ponto. Agora imagine o nutricionista dizendo que você precisa comer arroz com feijão, pois é uma combinação que provavelmente surgiu no Brasil entre o arroz consumido em Portugal e o feijão já consumido pelos índios; ou que o Brasil foi o primeiro país sul-americano a cultivar o arroz, chamado até então de milho d'água, e tudo o mais. Seria tão maçante e irrelevante quanto o professor que ensina apenas períodos literários aos alunos.

Preferência

Preferir não é excluir as demais possibilidades, é apenas ter maior tendência a alguma coisa em relação às outras. Digo isso porque somos diferentes, meu amigo: você prefere os grandes romances, mas eu prefiro os fragmentos literários. E é engraçado porque, no campo amoroso, sempre fui eu o propenso a relacionamentos estáveis e duradouros, enquanto você curte mais a multiplicidade e a fugacidade. Talvez por conta do medo do tédio. E essa diferença pode parecer contraditória, mas prefiro ver uma lógica: é que acho mais fácil me entediar lendo um romance de mil páginas do que lendo mil páginas de fragmentos, assim como me parece bem mais entediante buscar mil e uma experiências com mulheres ao invés de, com apenas uma, viver mil e uma experiências em conjunto. Se essas minhas opções não lhe parecem muito atraentes, talvez seja porque ainda lhe resta conhecer um grande escritor de fragmentos, ou mesmo uma verdadeira companhia. Da minha parte, tenho lutado para um dia ser ess...

O Inferno Sonoro

Acredito que um dos maiores poderes da literatura - ou melhor, de nós, leitores - é colocar em diálogo escritores distintos e distantes. Exemplo nítido disso é a abordagem dos perspicazes escritores Ricardo Piglia e C. S. Lewis acerca do ruído. O argentino Piglia, em seu ensaio "Retrato do Artista" (2000), não apenas constata o ruído como principal marca constitutiva de nossa sociedade, mas completa: "Ao mesmo tempo, os músicos contemporâneos comprovam e dizem o que ninguém sabe: que a cultura de massa não é uma cultura da imagem, mas do ruído. Pela janela aberta do estúdio de Gandini chegavam os rumores do mundo. Uma confusa profusão de sons inarticulados, cortinas musicais, alaridos políticos, vozes televisivas, sirenes policiais, anúncios de concertos internacionais e rock-and-roll . No extraordinário capítulo das "Sereias" no Ulysses (que é dedicado à música), Joyce deu a perceber que o capitalismo é um mataga...

Fogo do Céu

Não que as outras sejam menos impressionantes, mas uma das ideias mais emblemáticas da religião Evangélica é o perdão divino: quanto maior a culpa sentida pelo fiel, mais impressionado ele fica com o modo e a capacidade de seu Deus perdoá-lo e amá-lo incondicionalmente. É isso que garante tanta comoção e devoção. Do mesmo modo, o que mais impressiona e revolta às demais crenças não são os milagres, os relatos bizarros ou os paradoxos doutrinários – em outras áreas, fatos semelhantes são aceitos normalmente. O que mais estranha os olhos alheios, religiosos ou não, é a multidão de gente vivendo pautada pela noção de culpa. Necessariamente é preciso sentir-se (ou melhor, verdadeiramente ser ) culpado para entender, aceitar e proceder de acordo com os mistérios dessa crença – ou melhor, tentar viver de acordo com ela, porque atingir plenamente a santidade seria perder a culpa motivadora; em outras palavras, perder o Espírito Santo, responsável pela consciência da culpa e do pa...

Paciência e Compreensão

Imaginem que sou uma pessoa pós-moderna: consciente e militante, luto contra os males do mundo e exijo respeito ao ser humano. Daí Fulano, pessoa muito amada, decepciona-me com violência. Diante disso, tenho duas escolhas: ou agir contra Fulano, ou agir contra a violência. Se escolho a primeira opção, posso tranquilamente descer a porrada no infeliz, já que o problema não é a violência em geral: é a violência de Fulano contra mim. Deixo de lutar contra os males de mundo, lutando apenas contra os males que me fazem. Deixo de exigir respeito ao ser humano, exigindo apenas que me respeitem. Deixo até de amar Fulano, amando só a mim. Enfim, exerço minha paradoxal pós-modernidade, acreditando que o mundo sou eu. Por outro lado, se escolho a segunda opção, necessariamente preciso agir por outro meio não-violento, frequentemente com paciência e compreensão - as quais, ao contrário do que muitos pensam, são a melhor arma contra as deficiências morais. Compreendo quanto é fác...

Os gêneros breves

"Os gêneros breves, quando bem praticados, exigem mais que os exaustivos, tanto de quem os comete como de quem os lê. Um aforismo, isto é, duas ou três linhas de pensamento concentrado, dá ao bom leitor mais trabalho que muitas e muitas páginas de prosa corrida. Justamente porque o interesse de quem o escreve é de que o leitor faça por si todo o caminho feito por ele até a fórmula. Um aforismo começa a ser lido depois que se o lê. Já na prosa mais pormenorizada, ao contrário, tudo está lá. Acabada a leitura, resta a impressão. Engana-se por isso quem a julga mais pesada. Ao fim de um dia, alguém cansado não há de se aproximar, prioritariamente, de um Lichtenberg, mas de um romancista ou um ensaísta qualquer, sob pena de não tirar proveito algum do que vai lendo. Outro engano: o de imaginá-la mais demorada. Inversamente, cem páginas de bons fragmentos demandam, além de mais empenho, muito mais tempo do que, digamos, cem páginas de um contorcido Proust. Porque cada frase de um afo...

Sobre Política e Religião (resposta de Mayra Lourenço)

por Mayra Lourenço, em resposta ao texto " Sobre Política e Religião " "Olá! Não tenho a mesma capacidade retórica do autor deste belíssimo texto, tampouco tenho o domínio das letras como seus colegas e meu estimado futuro esposo, mas creio que poderei contribuir para o debate com minhas perdidas e alongadas reflexões históricas. Como todo historiador, comecemos por separar as frutas colocando cada qual em sua cesta, para que possamos compreender as suas especificidades; atentarmos a cada cor e sabor para que, posteriormente, possamos ajuntar tudo e fazer uma bela salada de frutas, sabendo qual a importância de cada amora ou maçã dentro dessa imensa tigela; notando qual é mais doce ou amarga e qual a composição exata de cada elemento para elaborar a receita com o gosto perfeito. Então vamos aos morangos: creio que não podemos colocar no mesmo pote idéias tão distintas, comecemos a descascar as frutas. Socialismo, anarquismo e capitalismo são diferentes modelos...

Sobre Política e Religião

Em face dos atuais discursos vazios de nossos presidenciáveis, os quais ignoram qualquer senso crítico ou coerência e visam apenas agradar a grande maioria da população, penso que seria contraditório da minha parte criticar tal postura por meio de textos que visassem apenas agradar a grande maioria de vocês, amigos leitores. É por isso que apresento a seguir algumas idéias soltas; talvez bem polêmicas, mas certamente não-vazias. Haverá quem possa dizer que são apenas brincadeiras forçadas de lógica e retórica, mas haverá também quem saiba descascá-las e espremê-las de maneira que rendam um suco forte, saudável e refrescante. 1. Dizer que questões religiosas não podem entrar em pauta porque o Estado é laico é tão infundado quanto dizer que questões socialistas não podem entrar em pauta porque o Estado é capitalista. Uma coisa é não concordar com a religião ou com o socialismo; outra coisa é querer impedir que o povo e os candidatos discutam tais questões. Uma ...

Literatura e Sociedade

Alguns amigos criticam a literatura contemporânea por ser apenas uma brincadeira de forma que não reflete a sociedade em que está inserida. Criticam sua falta de engajamento e seu esvaziamento de sentido. Creio que não há melhor reflexo que este.

Filosofia para a Sala-de-Aula

G.K. Chesterton (Daily News, 22 de junho de 1907) Fonte: HOTTOPOS Tradução de Gabriele Greggersen O que o homem moderno precisa compreender é simplesmente que toda a argumentação começa com uma afirmação ponto-de-partida; isto é, com algo de que não se duvida. Pode-se, é claro, duvidar da afirmação base, mas, nesse caso, já estaria dando início a outra argumentação diferente, propondo que se parta de outra suposição. Todo argumento inicia por um dogma infalível, e esse dogma absoluto, por sua vez, só pode ser discutido, se recorrermos a outro dogma infalível: nunca se pode provar o primeiro ponto-de-partida (senão não seria ponto-de-partida). Este é o be-a-bá do raciocínio lógico. E tem esta vantagem especial de que pode ser ensinado na escola, como qualquer outro be-a-bá. Não dar início a qualquer discussão sem antes declarar abertamente os postulados de cada um, é uma regra a ser ensinada tanto na filosofia, quanto na matemática de Euclides, ou em qualquer aula comum, u...

Insatisfações?

 by Juliana Peres: "Sim! é maravilhoso!  mas acho também que a gente deve se dar o direito de não se contentar tanto sempre. Eu sempre fui muito rígida com isso comigo, mas de uns tempos pra cá, acho que não dá pra cair tanto no outro extremo. Que não dá pra se obrigar a cair no outro extremo. Que as insatisfações existem e, paciência, a gente não precisa ficar sempre brigando com elas . O  que não pode, o que não dá, é achar que elas são, então, o centro da vida! Que tuuuudo é ruim! E que tudo gira em torno disso, e então, pronto, cabô, que droga de vida! rsrsrs. Isso eu acho péssimo! Aí não dá! A vida tem um montão de coisas boas e bonitas e pessoas adoráveis ao nosso redor também!" Que neste ano não sejamos alienados que tentam ignorar as coisas ruins, mas que também não sejamos alienados que não vêem o tantão de coisas boas ao nosso redor! ;-)