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Sem chegar a lugar algum

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12:00 Vale lembrar: a dicotomia benjaminiana já não comporta mais o narrador contemporâneo, pois ele nem é o viajante que volta para contar o que viveu, nem o velho familiar que sempre permaneceu na vila. O novo narrador, amante de Borges, que viaja vice-versa da casa ao trabalho e eventualmente ao lazer (do nada ao vazio, como preconizam os orientais), nem sai, nem fica: é eterno transeunte baudelariano girando na roda viva do Yin-Yang subjetivo. É por isso que a narrativa contemporânea dá tanto rodeio sem chegar a lugar algum. 03:00 G. K. Chesterton (escritor britânico cuja felicidade consistiu em fazer uma longa viagem para chegar exatamente no lugar de onde partiu, sentindo a aventura do viajante e a segurança familiar do aldeão, conforme narra em Ortodoxia ), preocupado com os rumos que a narrativa mundial tomava, sugeriu o seguinte: se não é possível sair do círculo da loucura, é preciso pelo menos expandi-lo, deixar de centrar-se no indivíduo e, de fato, descentrar-se ...

O dilema das portas

Uma das metáforas mais significativas a que recorro para explicar meu comportamento, tanto meus acertos quanto meus erros, é a seguinte: "meu prazer é abrir portas". Quando penso em abandonar tal comportamento, deparo-me com este trecho lindo e me conforto: "Todos conhecemos que a noite e os dois lados que todas as noites têm: a noite dentro de casa e a noite fora de casa. Ou seja: há a tranquilidade e o esperado e há, ainda, o medo e a estranheza. Claro que se poderá sempre dizer que a poesia não se encontra nem em um lado nem no outro: a noite tem dois lados e a poesia é a porta da casa no momento em que é aberta e o escuro cobre a relva e o céu. Mas quando alguém tem medo, deve correr para casa; e quando sente tédio, deve correr para a parte de fora da casa. E a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo, o que é bom e dois, sendo uma única, a poesia. Uma coisa que caminha, ao mesmo tempo, para seu lado direito e para o esquerdo...

O Inferno Sonoro

Acredito que um dos maiores poderes da literatura - ou melhor, de nós, leitores - é colocar em diálogo escritores distintos e distantes. Exemplo nítido disso é a abordagem dos perspicazes escritores Ricardo Piglia e C. S. Lewis acerca do ruído. O argentino Piglia, em seu ensaio "Retrato do Artista" (2000), não apenas constata o ruído como principal marca constitutiva de nossa sociedade, mas completa: "Ao mesmo tempo, os músicos contemporâneos comprovam e dizem o que ninguém sabe: que a cultura de massa não é uma cultura da imagem, mas do ruído. Pela janela aberta do estúdio de Gandini chegavam os rumores do mundo. Uma confusa profusão de sons inarticulados, cortinas musicais, alaridos políticos, vozes televisivas, sirenes policiais, anúncios de concertos internacionais e rock-and-roll . No extraordinário capítulo das "Sereias" no Ulysses (que é dedicado à música), Joyce deu a perceber que o capitalismo é um mataga...